Psicologia: Uma (nova) introdução

PSICOLOGIA: UMA (NOVA) INTRODUÇÃO
Uma Visão Histórica da Psicologia como Ciência

Luiz Claudio M. Figueiredo
Pedro Luiz Ribeiro de Santi
São Paulo: Educ
1997


A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE

UMA VISÃO PANORÂMICA E CRÍTICA

O objetivo do presente texto é apresentar resumidamente uma visão panorâmica e crítica da psicologia contemporânea.
Na verdade, só em época muito recente surgiu o conceito de ciência tal como hoje é de uso corrente, e foi ainda mais recentemente que começaram a ser elaborados os primeiros projetos de psicologia como ciência independente. Só então passou a existir a figura do psicólogo e passaram a ser criadas as instituições voltadas para a produção e transmissão de conhecimento psicológico.
O principal empecilho para a psicologia seria o seu objeto: a “psique”, entendida como “mente”, não se apresenta como um objeto observável, não se enquadrando, por isto, nas exigências do positivismo.
Ainda hoje, após mais de cem anos de esforços para se criar uma psicologia científica, os estudos psicológicos mantêm relações estreitas com muitas ciências biológicas e com muitas ciências sociais. Algo parece se opor a essa dispersão e exigir que se pense a psicologia de maneira mais integrada, respeitando-se, é claro, essa multiplicidade de ângulos e abordagens.


PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS PARA O APARECIMENTO
DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA NO SÉCULO XIX

A EXPERIÊNCIA DA SUBJETIVIDADE PRIVADA

Ter uma experiência da subjetividade privada bem nítida é para nós muito fácil e natural: todos sentem que parte de suas experiências é íntima, que mais ninguém tem acesso a ela. É possível, por exemplo, ficar um longo tempo pensando se vamos ou não fazer uma coisa, quase decidir por uma e, no final, acabar fazendo a outra, sem que ninguém fique sabendo de nada.
Historiadores e antropólogos com suas pesquisas mostram que essas formas de pensarmos e sentirmos nossa própria existência não são universais. Essa experiência de sermos sujeitos capazes de decisões, sentimentos e emoções privados só se desenvolve, se aprofunda e se difunde amplamente numa sociedade com determinadas características.

Ao lermos com atenção as obras de historiadores, veremos que as grandes irrupções da experiência subjetiva privatizada ocorrem em situações de crise social, quando uma tradição cultural (valores, normas e costumes) é contestada e surgem novas formas de vida. Em situações como estas, os homens se vêem obrigados a tomar decisões para as quais não conseguem apoio na sociedade. Quando há uma desagregação das velhas tradições e uma proliferação de novas alternativas, cada homem se vê obrigado a recorrer com maior constância ao seu “foro íntimo” – aos seus sentimentos (que nem sempre condizem com o sentimento geral), aos seus critérios do que é certo e do que é errado (na sociedade em crise há vários critérios disponíveis, mais incompatíveis). A perda de referências coletivas, como a religião, a “raça”, o “povo”, a família, ou uma lei confiável obriga o homem a construir referências internas. Surge um espaço para a experiência da subjetividade privada: quem sou eu, como sinto, o que desejo, o que considero justo e adequado? Nessa situação, o homem descobre que é capaz de tomar suas próprias decisões  e que é responsável por elas. A conseqüência desses contextos é o desenvolvimento da reflexão moral e do sentido da tragédia.
A tragédia se dá quando um indivíduo se encontra numa situação de conflito entre duas obrigações igualmente fortes, mais incompatíveis. É, também, numa situação como esta que os homens são levados a se questionar acerca de que é certo e do que é errado e a procurar na sua própria consciência uma resposta para essa questão.
Pode-se dizer que ao longo dos séculos as experiências da subjetividade privatizada foram se tornando cada vez mais determinantes da consciência que os homens têm da sua própria existência. Ou seja, nos primórdios da nossa história eram poucos os elementos de uma sociedade que podiam gozar de liberdade para se reconhecerem como seres moralmente autônomos, capazes de iniciativa, dotados de sentimentos e desejos próprios. Hoje, ao contrário, esta se tornou a imagem generalizada que temos de nós mesmos.


CONSTITUIÇÃO E DESDOBRAMENTOS DA NOÇÃO DE SUBJETIVIDADE NA MODERNIDADE

De forma simplificada, podemos dizer que nossa noção de subjetividade privada data aproximadamente dos últimos três séculos: a passagem do Renascimento para a Idade Moderna. O sujeito moderno teria se constituído nessa passagem e sua crise viria a se consumar no final do séc XIX.
A falência do mundo medieval e a abertura do ocidente ao restante do mundo teriam lançado  homem europeu numa condição de desamparo.
A experiência medieval fazia com que o homem se sentisse parte de uma ordem superior que o amparava e constrangia ao mesmo tempo. Por um lado, a perda desse sentimento de comunhão com uma ordem superior traz uma grande sensação de liberdade e possibilidade de uma abertura sem limites para o mindo, mas, por outro, deixa o homem perdido e inseguro: como escolher o que é certo e errado sem um ponto seguro de apoio?
O Renascimento foi, por tudo isso, um período muito rico em variedade de formas e experiências e de produção intensa de conhecimento. O contato com a diversidade das coisas, dos homens e das culturas impôs novos modos de ser.
Não podendo esperar pelo conselho de uma figura de autoridade, o homem viu-se obrigado a escolher seus caminhos e arcar com as conseqüências de suas opções. Nesse contexto houve uma valorização cada vez maior do “Homem”, que passou a ser pensado como centro do mundo. Assim, o mundo passou a ser considerado cada vez menos sagrado e mais como objeto de uso – movido por forças mecânicas – a serviço do homem. Essa transformação é parte essencial da origem da ciência moderna.
A grande valorização e confiança no Homem, pela concepção de que ele é o centro do mundo e livre para seguir seu caminho, fazem nascer o humanismo moderno.
O século XVI vê surgirem diversos personagens, reais ou fictícios, donos de um “mundo interno” rico e profundo. Leonardo da Vinci, Dom Quixote, Hamlet, entre muitos. O surgimento da imprensa proporcionou uma das experiências mais decisivas da modernidade: a difusão da leitura silenciosa. O trabalho intelectual passa a ser progressivamente um ato individual e mesmo a religiosidade pôde se tornar uma questão íntima.
Toda a falta de referências absolutas a que vão ocorrendo nesse momento fez nascer também uma escola da filosofia grega chamada ceticismo. Os céticos achavam impossível que pudéssemos obter algum conhecimento seguro sobre o mundo: a qualquer afirmação pode ser oposta a outra de igual valor; qualquer impressão que tenhamos pode ser um engano de nossos órgãos dos sentidos.
A descrença cética somada ao grande individualismo nascente acabaram por produzir uma reação que, na verdade, assumiu duas feições bem distintas: a reação racionalista e a reação empirista. Em ambas, contudo, tratava-se de estabelecer novas e mais seguras bases para as crenças e para as ações humanas, e procuravam-se essas bases no âmbito das experiências subjetivas.
Entre a Reforma e a Contra-Reforma vão nascendo tanto a individualidade quanto os modos de controle do indivíduo que conhecemos até hoje.
Certamente, a constituição da modernidade foi altamente complexa e longa, mas, se é preciso estabelecer um marco, Descartes se presta bem a isto.
Descartes pretende estabelecer as condições de possibilidade para que obtenhamos um conhecimento seguro da verdade. Ele se alinha entra aqueles que quiseram superar a grande dispersão do Renascimento e, o que talvez é o mais importante, superar o ceticismo.
Tudo aquilo que se mostrasse incerto teria que ser analisado a partir do elemento verdadeiro revelado ao final do processo. O procedimento parece conduzir Descartes ao ceticismo. Descartes se vê cada vez mais acuado, até imaginar a existência de um “gênio maligno”, capaz de engana-lo em toda e qualquer idéia que fizesse do mundo.
Nesse ponto extremo da dúvida, quando parece que ela é insuperável, Descartes inverte a questão e acredita ter superado a dúvida e encontrado um fundamento inquestionável para o conhecimento. Ele diz: parece que tudo o que tomo como objeto de meu julgamento se mostra incerto, mas, no momento mesmo em que duvido, algo se mostra como uma idéia indubitável; enquanto duvido, existe ao menos a ação de duvidar, e essa ação requer um sujeito. Daí nasce a famosa frase “penso, logo existo”. Todo o movimento de duvidar traz a evidência de que, ao menos enquanto um ser que pensa (e duvida), eu existo. Esta é minha única certeza: eu ainda não sei se os outros existem e mesmo se meu próprio corpo existe.
Descartes é tomado como inaugurador da modernidade no sentido em que ele marca o fim de todo um conjunto de crenças que fundamentavam o conhecimento. O homem moderno não busca a verdade num além, em algo transcendente; a verdade agora significa adquirir uma representação correta do mundo. Essa representação é interna, ou seja, a verdade reside no homem, dá-se para ele. O sujeito do conhecimento (o “eu”) é tornado agora um elemento transcendente, “fora do mundo”, pura representação sem desejo ou corpo, por isto supostamente capaz de produzir um conhecimento objetivo do mundo.
O filósofo Francis Bacon, contemporâneo de Descartes, pode ser apresentado como o fundador do moderno empirismo. Sua preocupação, como a de Descartes, era a de estabelecer bases seguras para o conhecimento válido e, também como Descartes, ele as procurava no campo das experiências subjetivas. É necessário dar à razão uma base nas experiências dos sentidos, na percepção, desde que essa percepção tenha sido purificada, liberada de erros e ilusões a que está submetida no cotidiano.
Bacon escreveu uma série de obras importantes, entre as quais o Novum organum, em que elabora suas propostas de como se livrar do erro e encontrar a verdade tendo como base a experiência subjetiva sensorial e racional. Bacon, como Descartes, é um dos grandes pioneiros na preocupação com o Método na produção de conhecimentos filosóficos e científicos que marcou toda a Modernidade ocidental desde o séc. XVII até os dias de hoje.


A CRISE DA MODERNIDADE E DA SUBJETIVIDADE
MODERNA EM ALGUMAS DE SUAS EXPRESSÕES FILOSÓFICAS

A crença de que o homem pode atingir a verdade absoluta e indubitável, desde que siga estritamente os preceitos do Método correto, seja ele o racional de Descartes ou o empírico de Bacon, acabou por ser criticada no séc. seguinte no interior do Iluminismo, o movimento filosófico que, no séc. XVIII, representava o que havia de mais avançado e progressista no terreno das idéias. Por diversos caminhos, no séc. XVIII, a quase onipotência do “eu”, da razão universal e do método seguro afirmada no séc. XVII foi criticada.
Hume, um dos grandes filósofos da época, chega a negar que o “eu” seja algo estável e substancial que permaneça idêntico a si mesmo ao longo da diversidade de suas experiências: ele seria muito mais o efeito de suas experiências do que o senhor de suas experiências; somos, para Hume, algo que se forma e se transforma nos embates da experiência e já não podemos nos conhecer como base e sustentação dos conhecimentos e de nós mesmos. Nessa medida, o conhecimento entendido como domínio dos objetos por um sujeito soberano não pode mais se sustentar.
Outro filósofo iluminista do século XVIII, Emanuel Kant, procura opor-se a essas formulações tão radicais, mas aceita a problematização da crença em da crença em conhecimentos absolutos. Em A crítica da razão pura, afirma que o homem só tem acesso às coisas tais como se apresentam para ele; a isto ele chama “fenômeno”. A única forma de produzirmos algum conhecimento válido é nos restringirmos ao campo dos fenômenos, pois as “coisas em si” (independente do sujeito) são incognoscíveis. Se, de um lado ele não crê na capacidade de o homem conhecer a verdade absoluta das “coisas em si”, toda a questão do conhecimento é radicalmente colocada em termos subjetivos, pois tudo que é “conhecível” repousa na subjetividade humana. Essa subjetividade, contudo, não é a subjetividade particular de cada indivíduo, é a subjetividade transcedental e universal do Homem. Embora essa subjetividade universal seja mantida e valorizada como “condição de possibilidade” de todas as experiências, as outras, as subjetividades empíricas e particulares de cada um de nós, devem aprender a viver em um mundo de incertezas e hipóteses nunca plenamente confirmadas, procurando, sempre com muita dificuldade, exercer o controle racional sobre seus impulsos. Para Kant, a soberania do sujeito, sua autonomia, é uma tarefa supremamente desejável – é a meta de todo esforço ético – e ainda possível, mas é sempre muito problemática porque as necessidades, os desejos e os impulsos nunca poderão ser definitivamente sossegados pela razão.
Além da autocrítica iluminista, o século XVIII trouxe outras formas de crítica às pretensões totalizantes do “eu”, da razão universal e do Método.
O Romantismo nasceu no final do século XVIII exatamente como uma crítica ao Iluminismo e, mais particularmente, à vertente racionalista do Iluminismo (com a vertente empirista, os românticos puderam até estabelecer uma convivência muita mais amistosa). A idéia cartesiana de que o homem é essencialmente um ser racional (o ser pensante do Cogito) é contraposta a idéia de que o homem é um ser passional e sensível.
A origem do movimento na Alemanha teve um sentido bem distinto: uma primeira manifestação romântica teve o nome de “Tempestade e ímpeto”. Trata-se de evidenciar a potência dos impulsos e forças da natureza, em muito superior à da consciência ou do homem como um todo.
A razão é destronada, o Método feito em pedaços e o “eu” racional e metódico é deslocado do centro da subjetividade e tomado agora como uma superfície mais ou menos ilusória que encobre algo profundo e obscuro.
O Romantismo é um momento essencial na crise do sujeito moderno pela destituição do “eu” de seu lugar privilegiado de senhor, de soberano.
Por outro lado, o Romantismo traz a experiência de que o homem possui níveis de profundidade que ele mesmo, no entanto, desconhece. Paradoxalmente, portanto, há uma grande valorização da individualidade e da intimidade. Quando pensamos no alto grau de individualismo e solidão presentes no século XX, é inevitável pensarmos na presença em nós do sujeito romântico.
Ao longo do século XIX, afirmou-se a partir de diversas fontes a deposição do “eu” de seu lugar privilegiado. Por exemplo: a idéia de que o comportamento do homem é determinado por leis que não pode controlar e que freqüentemente nem mesmo conhece está presente no pensamento de Marx.
Mas talvez o ponto mais agudo dessa crise tenha sido a filosofia de Nietzsche. Com seu procedimento, chamado “genealogia”, Nietzche procura desconstruir os fundamentos de toda a filosofia ocidental desde Platão. Basicamente, trata-se de mostrar como cada elemento tomado como fundamento absoluto ou causa primeira de tudo o que existe foi também, por sua vez, criado num determinado momento com uma determinada finalidade. Se algo foi criado ao longo do tempo, não é eterno ou causa primeira. Assim, a “idéia” platônica, Deus, o sujeito moderno de Descartes ou de Bacon são revelados como criações humanas. Nossas crenças e valores estão comprometidos com a perspectiva em que nos colocamos a cada instante. A crença em algo fixo e estável seria uma necessidade humana, na tentativa de crer que tem controle sobre o devir. Nietzsche dá um passo bem largo e radical; não só o homem é deslocado da posição de centro do mundo, como a própria idéia de que o mundo tenha um centro ou uma unidade é destruída. A ilusão não pode ser substituída por nada melhor por que simplesmente não existe nada melhor. A questão para Nietzche é saber o quanto cada ilusão em cada contexto se mostra útil à expansão da vida.
Não só o privilégio do “eu” na modernidade, mas toda a metafísica ocidental parece ser colocada em xeque aí. Mas, como veremos, o projeto científico dos séculos XIX e XX e o humanismo resurgido no século XX mantêm esse projeto vivo.


SISTEMA MERCANTIL E INDIVIDUALIZAÇÃO

A existência de um sistema social e econômico que, talvez pela carga de conflitos e transformações que carrega consigo, aprofunda e universaliza as experiências da subjetividade privada: referimo-nos ao sistema mercantil plenamente desenvolvido.
Em quase todas as sociedades há alguma atividade de troca comercial, principalmente em termos de trocas entre comunidades. Nesses casos, a produção é efetuada para atender as necessidades de quem produz, quer dizer, cada comunidade procura ser autosuficiente. Até recentemente, se fôssemos ao interior do Brasil, observaríamos como inúmeras grandes fazendas continuam muito daquilo que seus moradores consumiam, e esses produtos não eram produzidos para serem trocados.
Esse quadro muda quando se desenvolve uma produção para a troca, em que cada um passa a produzir aquilo a que está mais capacitado. Já encontramos aí um forte motivo para a experiência da subjetividade privatizada: cada um deve ser capaz de identificar a sua especialidade, aperfeiçoar-se nela, identificar-se com ela. Mas isso não basta. Os produtos produzidos para a troca devem ser levados ao mercado. O mercado cria inevitavelmente uma idéia de que o lucro de um pode ser o prejuízo de outro e que cada um deve defender seus próprios interesses. Quando o mercado toma conta de todas as relações humanas, universaliza-se a experiência de que os interesses de cada produtor são para ele mais importantes do que os interesses da sociedade como um todo e assim deve ser. Ora, esta é exatamente a situação numa sociedade mercantil plenamente desenvolvida como a nossa.
Porém ainda há mais a dizer. O mercado de produtos não é tudo: há também o mercado de trabalho. Para este, vão os homens que não têm meios próprios para produzir e sobreviver, necessitando alugar sua capacidade de trabalho para receber em troca um salário com o qual devem comprar os produtos de que necessitam. Agora avaliaremos os efeitos da experiência do indivíduo no mercado de trabalho, quando este se generaliza, sobre a subjetividade privatizada.
Em primeiro lugar, a consciência de sua especialidade como produtor, de sua habilidade, destreza e rapidez aplica-se igualmente ao trabalhador assalariado, embora muitas vezes esse trabalhador, pelo caráter da atividade que exerce, venha a ser submetido a uma atividade de tal modo padronizada que pouco lhe resta de seu.
Devemos entender com mais profundidade o significado da economia mercantil para a individualização, devemos considerar com mais atenção as condições que antecedem a própria formação do regime assalariado. Para que existam trabalhadores necessitados de garantir a própria sobrevivência, alugando sua força de trabalho, é preciso que eles tenham perdido suas condições mais antigas de vida e produção. Isto significa a ruptura dos vínculos que nas sociedades tradicionais pré-capitalistas uniam os produtores uns aos outros e todos os meios de produção.
Tudo isso precisa desaparecer para que surja um trabalhador livre, que pode e necessita ir ao mercado de trabalho para arranjar uma ocupação. Essa liberdade, contudo, é muito ambígua. Ela é principalmente uma liberdade negativa, isto é, o sujeito ao ganha-la perde uma porção de apoios e meios de sustentação. Perde a solidariedade do seu grupo: a família ou aldeia deixam de ser auto-suficiente e cada indivíduo vai isoladamente procurar o seu sustento. Mas esse indivíduo livre é um desamparado. Ele pode escolher (até certo ponto), mas, mesmo que a escolha seja real, ele passa a conviver com a indecisão: seu destino, pelo menos teoricamente, passa a depender dele, de sua capacidade, de sua determinação, de sua força de vontade, de sua inteligência e, também, de sua esperteza, de sua arte de vencer, de passar por cima dos concorrentes, de chegar primeiro – e de sua sorte.


IDEOLOGIA LIBERAL ILUMINISTA, ROMANTISMO E REGIME DISCIPLINAR

Nos séc. XVIII e XIX desenvolveram-se na cultura ocidental duas formas de pensamento que refletem muito as experiências da subjetividade privatizada numa sociedade mercantil em pleno processo de desenvolvimento: a ideologia Liberal Iluminista e o Romantismo. Na ideologia Liberal as principais idéias manifestaram-se na Revolução Francesa, os homens são iguais em capacidade e devem ser iguais em direitos. Todos devem ser solidários uns com os outros, sem renunciar a essa liberdade.
No Romantismo do início do séc. XIX, reconhece-se a diferença entre os indivíduos, e a liberdade é exatamente a liberdade de ser diferente. Apesar de todos serem diferentes e únicos é possível buscar uma comunicação entre esses seres diferentes.
Tanto na Ideologia Liberal como no Romantismo se expressam os problemas da experiência subjetiva privatizada: segundo a Ideologia Liberal, todos são iguais, mas têm interesses próprios (individuais), mas apostam na utópica fraternidade; segundo o Romantismo, cada um é diferente, mas acreditam que os grandes e intensos sentimentos podem reunir os homens apesar de suas diferenças.
Na busca de reduzir os “incovenientes” da liberdade, das diferenças singulares, etc, que se foi instalando um sistema de docilização, de domesticação dos indivíduos, sistema que coloca em risco tanto as idéias liberais quanto as românticas. Esse sistema que envolve a elaboração e aplicação de técnicas “científicas” de controle social e individual será chamado Regime Disciplinar ou, mais simplesmente, “Disciplinas” e pode ser encontrado facilmente na prática de todas as grandes agências sociais, como as escolas, as fábricas, as prisões, os hospitais, os órgãos administrativos do Estado, os meios de comunicação de massa, etc. Embora essas Disciplinas reduzam em muito efetivamente o campo de exercício das subjetividades privatizadas, impondo padrões e controles muito fortes às condutas, à imaginação, aos sentimentos, aos desejos e às emoções individuais, faz parte de seu modo de funcionamento dissimular-se, esconder-se, deixando-nos crer que somos cada vez mais livres, profundos e singulares.


A CRISE DA SUBJETIVIDADE PRIVATIZADA OU A DECEPÇÃO NECESSÁRIA

Uma das condições para que surjam projetos de psicologia científica é a clara idéia da experiência da subjetividade privada. Mas há outra: é preciso que essa experiência entre em crise.
A subjetividade privatizada entra em crise quando se descobre que a liberdade e a diferença são, em grandes medidas, ilusões, quando se descobre a presença forte, mas sempre disfarçada, das Disciplinas em todas as esferas da vida, inclusive nas mais íntimas e profundas. Os interesses particulares levam a conflitos; a liberdade para cada um tratar de seu negócio desencadeou crises, lutas e guerras. Os trabalhadores do séc. XIX foram aos poucos descobrindo que se defenderiam melhor unidos em sindicatos e partidos do que sozinhos. Para combater os movimentos operários reivindicatórios, para pôr um pouco de ordem na vida social – em que cada um defendia o que era seu sem pensar nas conseqüências para todos – e para defender os interesses dos produtores de uma nação contra os das outras, a administração pública cresceu, cresceram o Estado, a burocracia, cresceram as forças armadas. Ainda no séc XIX, conjuntamente com as burocracias, cresce a grande indústria baseada na produção padronizada e mecanizada, cresce o consumo de massa para os produtos industriais.
Quando os homens passam pelas experiências de uma subjetividade privatizada e ao mesmo tempo percebem que não são tão livres e tão singulares quanto imaginavam, ficam perplexos. Põem-se a pensar acerca das causas e do significado de tudo que fazem, sentem e pensam sobre eles mesmos. Os tempos estão ficando maduros para uma psicologia científica.
Ao lado dessa necessidade que emerge no contexto das existências individuais de se saber o que somos, quem somos, como somos, por que agimos de uma ou outra maneira, surge para o Estado a necessidade de recorrer a práticas de previsão e controle: como lidar melhor com os sujeitos individuais? A esperança é que seja possível padroniza-lo segundo uma disciplina, normaliza-lo, coloca-lo, enfim, a serviço da ordem social. Surge, desse modo, a demanda por uma psicologia aplicada, principalmente nos campos da educação e do trabalho. Ou seja, o Regime Disciplinar, em si mesmo, exige a produção de um certo tipo de conhecimento psicológico de forma a tornar mais eficazes suas técnicas de controle.
É assim que no final do séc XIX estão dadas as condições para a elaboração dos projetos de psicologia como ciência independente e para as tentativas de definição do papel do psicólogo como profissional nas áreas de saúde, educação e trabalho.


SÍNTESE

A experiência da subjetividade privatizada, em que nós nos reconhecemos como livres, diferentes, capazes de experimentar sentimentos, ter desejos e pensar independentemente dos demais membros da sociedade é uma precondição para que se formulem projetos de psicologia científica. Embora para nós essas experiências sejam óbvias, os estudos históricos e antropológicos revelam que nem sempre é assim em outras sociedades e culturas.
Outra precondição para a formulação de projetos de psicologia científica é a experiência de que não somos assim tão livres e tão diferentes quanto imaginávamos. É a suspeita de que há outras “forças invisíveis” nos controlando e de que não conseguimos espontaneamente ver com clareza as causas e os significados de nossas ações que nos leva a investigar o que há por detrás das aparências. Essa experiência se generaliza com o colapso da ideologia Liberal Iluminista e do Romantismo que, cada um à sua maneira, mantinham inquestionável a noção de subjetividade individual, embora já se encaminhassem para posições muito críticas a respeito. Esse colapso está associado ao desenvolvimento e ao domínio crescente do Regime Disciplinar e se expressa em elaborações filosóficas que põem em questão a soberania, a autonomia e a identidade dos indivíduos.

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Fragmentos do livro:
FIGUEIREDO, Luís C.M. SANTI, Pedro. L. R. Psicologia uma nova introdução: Uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo: Educ, 1997. 97p.

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