Orientação Não-Diretiva, Franz V. Rudio

A ideia da relação de ajuda na orientação não-diretiva

Na relação de ajuda que se estabelece com o indivíduo, a orientação não-diretiva deseja que a atenção se focalize, não sobre o problema da pessoa, mas sobre a própria pessoa.

Não devemos esquecer que o problema apresentado é expressão de um traço existencial do indivíduo. Ao invés de ficarmos absorvidos pelo esforço de apenas compreender e resolver o problema, devemos criar condições favoráveis para que o indivíduo alcance o significado que tem o problema para si mesmo, como ser-no-mundo.

A apresentação da dificuldade se torna uma oportunidade para o indivíduo revelar-se um pouco mais a si mesmo, entrando num processo de conhecer-se melhor.

Acredita-se que existe em todo ser humano um processo natural e permanente de desenvolvimento, onde o indivíduo está em busca de sua auto-realização, autonomia e ajustamento. A melhor forma de ajudar alguém é criar condições favoráveis ára que o indivíduo desperte seu desenvolvimento, identificando e retirando os obstáculos que o estão impedindo.

Carl Rogers considera a vida como "um processo que flui, que se altera e onde nada está fixado".

Não ajuda a ninguém tentar viver uma vida que não é sua ou rejeitar ser o que realmente é. Considera-se que a base necessária para mudanças desejáveis é a aceitação de si, aqui e agora: a partir do que o indivíduo realmente é.


Conceitos básicos da relação de ajuda no enfoque não-diretivo

A comunicação consigo mesmo é vista como processo, no qual o indivíduo vai representando adequadamente na consciência tudo que ele sente e percebe em si.

Para Carl Rogers, todo o processo de desajustamento se deve a uma falha de comunicação: o indivíduo deixou de comunicar-se bem consigo e, em consequência, a sua comunicação com os outros ficou prejudicada.

O relacionamento permissivo é o elemento básico da situação psicoterápica.

A pessoa pode ser congruente, ser-realmente-o-que-é, sem necessidade de esconder-se atrás de "máscaras" ou "fachadas".

O centro de avaliação está em si e não no outro. Deste modo, se confia em seu organismo, tornando-se critério para si mesmo. Assim, a tendência ao desenvolvimento pode efetivar-se, de fato, no sentido da auto-realização, autonomia e maturidade.


O "aconselhamento" não consiste em "dar conselhos"

Aquele que dá conselhos elabora, de uma só vez ou de modo progressivo, com maior ou menor participação do aconselhando o que este deve pensar, sentir ou fazer diante de acontecimentos, coisas e pessoas.

Eu nunca serei o outro e jamais estarei no seu lugar. Assim, o que serve para mim não serve para ele.

O desejo de ajudar o outro, não devemos tirar-lhe a possibilidade de optar, nem manipular suas opções, nem elaborá-las no lugar dele.


O terapeuta não-diretivo

O terapeuta não diretivo é de fato um acompanhante, um companheiro de jornada. Deve criar condições favoráveis para o cliente descobrir o caminho e percorrê-lo por si. Mas, realmente, o terapeuta só descobre a caminhada à medida que o cliente o faz, pois, durante a entrevista, a sua única referência é o processo que se desenvolve no quadro interior do cliente.

De fato, o terapeuta não-diretivo está interessado em deixar o cliente fazer a experiência, a fim de aprender por si: o cliente é quem deve fazer as suas próprias descobertas, seguir o seu próprio caminho e encontrar as soluções que lhe pareçam mais adequadas. É um processo maiêutico, em que o indivíduo, por si, busca e alcança os resultados.

O importante não é a informação que se dá, mas a possibilidade do cliente aproveitá-la convenientemente para realizar sua atividade estruturante.


Os conceitos de "organismo" e de "experiência"

Organismo indica o próprio indivíduo, enquanto é totalidade psicossomática em interação com o meio. "Organísmico" é o que pertence ao organismo.

O termo experiência indica o que se passa no organismo num determinado momento, o que o indivíduo vê, ouve, sente, recorda, etc, e o que pode ser representado adequadamente na consciência. Diante da experiência, o organismo reage como totalidade organizada: não são os meus olhos que vêm, sou eu que vejo.


Representação correta e representação incorreta

Costuma-se dizer que a representação é correta quando existe acordo, harmonia, entre a experiência real, o que de fato acontece e a construção mental que dela se faz.

A boa comunicação consigo mesmo consiste num processo, onde as experiências organísmicas são simbolizadas corretamente.

Através deste processo, surge o acordo entre as experiências do organismo e a imagem que o indivíduo tem de si. A este acordo dá-se o nome de congruência. O indivíduo congruente é aquele que tem comunicação consigo.

A congruência pode significar o acordo entre a experiência e a imagem de si, e o acordo entre a experiência e a consciência - que as experiências são simbolizadas adequadamente.

A incongruência significa desacordo. O desajustado psicológico é um incongruente, não tem comunicação consigo mesmo. Encontrando-se em nível inconsciente, o indivíduo "não sabe" o que está impedido, a finalidade da terapia é ajudar a descobri-lo.

A comunicação consigo mesmo é o caminho adequado que o indivíduo possui para se reajustar.

Simbolizando corretamente suas experiências, pode-se conhecer exatamente a situação onde se encontra e o seu próprio significado dentro da situação.

Na medida da boa comunicação consigo mesmo, se busca o equilibrio biopsicosocial: pode confiar em si mesmo e os outros podem confiar nele.


A Liberdade Experiencial

Todo ser humano precisa de consideração positiva, a necessidade de os outros nos quererem bem, de serem acolhedores para conosco, de nos aceitarem e nos respeitarem como somos.

O desajustamento psicológico começa num processo de introjeção. O indivíduo avalia sua experiência, não através de seus próprios critérios, mas por valores dados pelo outro. Ou seja, coloca no outro o seu centro de avaliação.

Assim, o desajustamento aparece pela falta vivencial da discriminação entre os valores próprios do indivíduo e aqueles que são do outro. Ele acaba por rejeitar uma experiência que valoriza, "sentido", como se fosse o outro, que para si ela não tem valor ou, mesmo, é um antivalor.

Quando o indivíduo é capaz de fazer a discriminação, aceitá-la e vivenciá-la, não existe desajustamento. Mantendo em si o seu centro de avaliação, o indivíduo saberá reconhecer, por critérios seus, se a experiência tem ou não valor para si. Verificará que certas manifestações suas, vividas como agradáveis, são para a pessoa-significativa desagradáveis e vice-versa. Saberá então que ele não é a pessoa significativa: são dois seres diferentes.

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