A Voz do Silêncio, Budismo Tibetano

Aquele que pretende ouvir a voz do nada... tem que inteirar-se da natureza do Dharana. A mente é a grande assassina do real. Que o discípulo mate o assassino.

Antes que a alma possa ouvir, a imagem tem que se tornar surda aos rugidos como aos murmúrios, aos gestos dos elefantes em fúria, como ao bramido prateado do pirilampo de ouro. Tanto o fracasso como a glória são indiferentes, pois seu único tributo é ser.

Para te tornares conhecedor do Eu espiritual, tens primeiro que conhecer o Eu mundano; é necessário um alto entendimento deste Eu mundano, compreender as suas leis, suas funções, seus truques, para logo conquistar aquilo que se encontra adormecido sob as trevas. Abandona tua vida se queres viver.

Como aspirar a verdade se vive-se na mentira? Como pretendes ver a luz se lutamos pela manutenção das sombras? Todo o manifestado tem uma quota de energia; se as gastarmos em coisas mundanas, transitórias, superficiais, nada nos restará para o superior. O homem inteligente tratará de curar a última causa do mal, e não o seu efeito, porque se só o efeito é curado, voltará denovo, pois ainda continua a causa que lhe deu a origem.

Há só uma passagem até ao Caminho; só chegando bem ao fim se pode ouvir a Voz do Silêncio. A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e de dor; estes só podem ser calados pela voz da virtude. Ai de ti, pois, discípulo, se um único vício que não abandonaste ainda sobrevive; porque então a escada se abaterá e far-te-á cair; a sua base assenta no lodo fundo dos teus pecados e defeitos, e antes que possas tentar atravessar esse largo abismo de matéria, tens de lavar os teus pés nas águas da renúncia. Acautela-te, não vás pousar um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa poluir um degrau com seus pés lamacentos. A lama vil e viscosa secará, tornar-se-á pegajosa, e acabará por colar-lhe o pé ao degrau; e, como uma ave presa no visco do ardiloso caçador, ele será afastado de todo o progresso ulterior. Os seus vícios tomarão forma concreta e puxá-lo-ão para baixo. Os seus pecados erguerão a voz, como o riso e o soluço do chacal ecoam depois do sol se pôr; os seus pensamentos tornar-se-ão um exército e levá-lo-ão consigo, como um escravo cativo.

Porque o chamado do mundo é, todavia, muito forte para aquele que começar seu caminho, logo depois, parecerá mais fácil. Mas o primeiro momento, como nos diz o livro, é sofrimento. Para ouvir a Voz do Silêncio, isto é, a voz de nosso ser, de nosso espírito, é necessário morrer como seres passionais; temos que afastar-nos dos sentidos, governar nossa mente, subjulgar nossa natureza mundana, passar da ignorância à busca da sabedoria.

Lembra-te, tu que lutas pela libertação humana, que cada fracasso é um triunfo, e cada tentativa sincera a seu tempo recebe o seu prêmio. As santas sementes que brotam e crescem invisíveis na Alma do discípulo, dobram como juncos mas não quebram, nem podem elas perder-se. Mas quando a hora soa, desabrocham.

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BLAVATSKY, Helena P. A Voz do Silêncio. Pensamento.

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