Educação Libertária, Encarnación G. Montero

A educação libertária se forma com pessoas que sentem, pensam, vivem e raciocinam, desejando para si e para os demais a liberdade, a igualdade e a justiça social.

Defender a educação libertária inclui uma luta permanente contra o que se apresenta como inamovível. Inclui a luta contra os imobilismos, procedam eles de nós mesmos, ou das ideologias que proclamam esta alternativa. É um manter-se em um terreno onde a dúvida é um componente importante, porque tratamos com pessoas e nunca chegamos a nos conhecer nem a conhecê-las como um todo. Portanto a educação libertária é evolutiva e dinâmica e requer um estudo e investigação psicopedagógica, antropológica, sociológica e econômica de forma constante. Nenhuma pessoa é igual a outra e, portanto, as situações não podem nunca serem as mesmas.

A educação libertária pode ser uma utopia, mas, quando esta se converte em realidade, é uma forma de educar ilimitada, porque as pequenas conquistas conseguidas se transformam rapidamente em uma nova busca, na ampliação de novos horizontes.

É uma pedagogia a serviço da humanidade.

Uma forma de nos auto-educar para a pacificação e a harmonia que nos ajuda a superar, a confrontar e a resolver, a conviver com os erros e os acertos, com a própria rebeldia e com a resignação aprendida e herdada de séculos e que induzem a uma reflexão profunda sobre os sentimentos, sobre a razão, sobre a imaginação, sobre o poder. Resulta uma vida em contínuo movimento que pode se deter e ativar sem medo, produzindo seu próprio movimento, sua própria velocidade, sem ter autoridade alguma que lhe determine nada, mas ao mesmo tempo levando consigo a experiência e o desenvolvimento de quem anteriormente tenha refletido sobre suas vivências e seus pensamentos.

Como pessoa, qualquer um tem o direito de ser tratado com respeito em suas diferenças, em sua identidade, em suas metas, em seus sentimentos, em seus acertos e em seus erros, o direito para podermos nos expressar e viver com liberdade; o direito que possuímos para nos desenvolver sem repressão, sem preconceitos, com amplitude de pensamento e de vida.

A liberdade é esse "não" que sentimos ante tudo que é imposto. Quando pomos a rebeldia sobre a mesma mesa onde os demais colocam a submissão, não nos importa ganhar ou perder. E mais: sabemos que vamos perder, mas apenas sentimos que nada nem ninguém pode submeter nosso não, nossa dúvida, nosso desejo de investigar.

Apesar dos pesares, sigo dizendo "não" às manipulações, às explorações, às autoridades que se autoproclamam perfeitas para chegar onde elas tenham decidido que temos de ir, a um lugar onde não faz falta que pensemos muito, porque eles o fazem por nós. Sigo dizendo "não" à submissão das ideias e ao conformismo com a vida.

O poder se encontra dentro do ser humano: se encontra na distribuição que se faz da informação, dos conhecimentos, da economia, nas classes que se proclamam mais sábias que as demais, que pensam que, por graça de Deus, de Bakunin, ou de Marx, são portadores de mensagens de salvação para os demais. Porém eles apenas se convertem, sem se darem conta disto, em protagonistas que expõem teorias que, enqaunto tiverem eco, se convertem em dogmas para os outros, dotando estes líderes de certa proeminência, ou certo protagonismo político, ou certo bem-estar social e econômico.

O problema dos ideólogos está na falta de autocrítica, no medo de se reconhecerem vulneráveis.

Não creio que uma educação libertária deva contemplar em seus objetivos a formação de militantes em nada. Precisamente a liberdade dentro da educação deve ser um suporte que ajude a unir os meios e os fins. O meio deve ser livre e o fim também.

A educação libertária está composta de matizes sensíveis que conformam atitudes diferentes de respeito e de solidariedade ante as pessoas que decidem iniciar conosco sua formação. E são as atitudes que avaliam o sentimento e pensamento libertários. As teorias ficam nas prateleiras para serem consultadas e estudadas, mas no processo vivencial da aula geram-se novas formas de relação que partem de cada individualidade e que são o motor de novas relações grupais. Evidentemente há umas linhas bases que fazem com que o caminho se assinale de forma diferente de como é assinalado na educação tradicional. Estas bases partem do respeito, do desenvolvimento do sentimento de solidariedade e cooperação, do desenvolvimento da auto-aprendizagem, do desenvolvimento da capacidade de crítica, da auto-reflexão, da igualdade entre as pessoas que conformam os grupos, sejam mulheres ou homens, pertençam a uma classe social mais alta ou mais baixa, tenham capacidades intelectuais inferiores ou superiores. Igualdade é igualdade e deve ser baseada no conhecimento das diferenças, para que se possam superar a cada passo as desigualdades estabelecidas que são motivo de opressão para essas pessoas, grupos ou coletivos. É necessário formentar o diálogo e a discussão, de forma que a assembléia seja um fórum de debate, não uma plataforma para potenciar lideranças.

Isso se vai conseguindo pouco a pouco, sem pressa, criando-se um clima que suporte felicidade e tranquilidade, através do qual cada pessoa se sinta aceita pelo educador e pelo grupo de companheiros, com os limites curriculares determinando o próprio processo de auto-aprendizagem, e não as normas estabelecidas, sendo o mais importante da matéria a ensinar o desejo de conexão com a cultura, o estudo e a investigação com a própria vida da pessoa que chega na aula, esteja no nível que esteja.

Passa pela eliminação dos exames como forma de avaliação. Trata-se também de ajudar a resolver, com a inteligência, as diferentes situações que a própria sociedade marca como obstáculos, oferecendo caminhos alternativos para os conhecimentos que a sociedade oferece como únicos, mas que podem ser objeto de modificações. Formar sujeitos críticos, reflexivos e defensores da liberdade e da justiça social, intelectual e econômica.

A educação libertária deve oferecer, no campo da estrutura social, um modelo diferente, a fim de defender o cooperativismo como fórmula alternativa na organização do trabalho e da economia, bem como se deve dar informação suficiente sobre os modelos imperantes, para que, também com a inteligência, se resolvam as distintas opções que a sociedade vai oferecer e que são, na maioria dos casos, opostos ao sentimento e pensamento cooperativos.

A educação libertária deve ensinar a explorar o poder que cada pessoa possui mas com uma concepção contrária ao uso e abuso deste poder, estudando seus limites a partir dos parâmetros do respeito e da solidariedade.

A educação libertária deve ensinar os códigos e signos que marcam o pensamento das elites para combatê-las. Isso se as pessoas assim crerem; se não, para que tenham informação suficiente que lhes possibilite uma escolha de vida. Uma vez que já conhecem, poderão reivindicar e reclamar, se é que elegem essa opção.

A educação libertária deve ter em conta que o conteúdo dos currículos devem ser organizados pelos educadores e não pelas editoras dos livros de textos didáticos. Os conteúdos devem ir mais fundo nos valores que serão transmitidos: os que nos humanizam e nos ajudam a desenvolver-nos como pessoas; devem estar em contato com a vida e o entorno social onde nos movemos, ajudando a resolver, através do ambiente educativo que se prepara e dos livros que consituem as bibliotecas de aulas, os problemas que temos.

A forma também é modificável. O objetivo é ir eliminando as barreiras culturais entre as distintas classes acadêmicas, para que a informação flua de forma horizontal e não esteja estancada nas hierarquias estabelecidas, já que a distribuição dos conhecimentos gera estruturas de poder, pois cada classe acadêmica escreve com uma linguagem própria de sua classe.

Os textos, os debates, as discussões, devem tender a dar explicações coerentes e baseadas na ciência sobre o mundo dos sentimentos, para que as pessoas aprendam a manejar de forma livre sua vida, conhecendo, aprendendo e transgredindo aquelas fórmulas que lhes fazem involuir em suas relações pessoais e sociais.

A educação libertária é uma oferta de liberdade e conhecimentos e uma possibilidade de aprendizagem alternativa; pode conduzir a mudanças sociais, mas pode cair simplesmente na formação individual. Pode conduzir à formação de novas estruturas sociais e econômicas, mas pode ser que também passe despercebida.

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Fragmentos do texto: "Educação Libertária"
Autora: Encarnación Garrido Montero.
Tradução: Maria Oly Pey.
Do livro: "Pedagogia Libertária - Experiências Hoje"
Editora Imaginário, São Paulo - SP, 2000.

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