Ditaduras Históricas e Diárias

Escrever sobre a ditadura é um tanto complicado, por se tratar de um momento histórico que muitos não querem recordar e muitas vezes preferem esquecer, tanto para livrar de suas responsabilidades como também para esconder seus reflexos nos dias atuais.

A Ditadura Militar no Brasil aconteceu entre 1964 à 1985, tendo sido financiada pelos EUA com o intuito de conter qualquer ideal que divergisse ou conflitasse com a ideologia capitalista neoliberal.

Nesta época, os meios de comunicação eram fortemente manipulados com autoritarismo e censura. Nossos pais e avós vivenciaram muitos momentos com sentimento de medo e culpa constante, onde muitas coisas só podiam ser feitas às escondidas, com o risco de serem presos, torturados e até mortos. Quanto vale a vida mesmo?

Alguns religiosos, estudantes e comunistas tentaram se unir para estabelecer meios de ação contra esse abuso. Enquanto isso, o outro lado fazia de tudo para esconder os acontecimentos, um juiz filho da puta censurava os registros de torturas verbais, físicas e psicológicas de pessoas que apanharam peladas e sofreram choques elétricos. Algumas pessoas preferiram optar pelo suicídio a viver na condição de coisa.

Hoje em dia muitos desses fatos ainda se repetem com outras roupagens, vivemos a herança histórica da ditadura, que afeta nosso dia-a-dia. Toda a repressão passada gerou uma sociedade medrosa, despolitizada, alienada e apática. Vivemos a ditadura ideológica da exclusão, da moda, do preconceito e discriminação, da opressão indireta, dos olhares repressores, do obrigação ao consumismo que nos consome. Somos excluídos e marginalizados ao direito e acesso às leis que nos garantem vida e a dignidade, pois em nossa sociedade o direito serve aos que possuem dinheiro e instrução acadêmica, a democracia é fachada, não é praticada.

Nesta situação é imprescindível que haja uma conscientização popular de nosso momento histórico, e que a justiça seja exercida por meio da punição de todos os membros envolvidos na ditadura e na cessação de qualquer prática de autoritarismo. Precisamos abandonar a idéia de poder que nos foi ensinada como característica dos policiais, da mídia, dos políticos, dos professores, dos padres e juizes. E ter a consciência de que todos os espaços são políticos – necessitando de novos debates e modificação das relações nas instituições e espaços públicos: igrejas, escolas, empresas, prefeituras, ruas, clubes, praças, bares, etc.

É preciso muito cuidado com idéias de que o "sistema" ou a "sociedade" são instancias separadas de nós mesmos e de nossa vida. Há frases e ideais que favorecem a apatia política, tais como: “é tudo culpa do sistema”, ou: “a sociedade é assim mesmo”. Oras, a sociedade somos nós - cada um faz parte de sua construção, e o sistema é alimentado pelos nossos comportamentos, podendo ser aceito ou negado, de acordo com nossa prática diária.

Aos poucos vamos entendendo que não há deus, e que estamos sozinhos no mundo. Isso pode causar um mal-estar ou medo inicial, mas nos permite perceber que somos nós que fazemos o mundo que vivemos com a nossa cara, desde que sejamos autênticos e participativos – exigindo o que é necessário e se negando ao que não concordamos, com consciência crítica.

Bruno Carrasco, abril de 2008.

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