Produção Artística no Sul de Minas

Para escrever sobre a produção artística e a cultura do sul de minas, parto de minha experiência e percepção pessoal, tanto por acreditar na impossibilidade da imparcialidade, quanto por crer que a história de vida de cada um constitua o valor da experiência de cada um, não sendo dependente de concepções acadêmicas e de mercado.

O que percebo na produção artística do Sul de Minas refere-se a características do próprio povo, que se refletem não somente na produção artística, mas também na vida pública, na política, nas escolas, etc. Apesar de muita gente criticar aspectos da realidade, a grande maioria nada faz para mudar, mantendo uma postura de passividade, desinteresse e submissão.

Independente do mercado cultural e/ou das políticas públicas, penso que a maior urgência seja mudar a postura de cada um com relação a arte e a cultura - a partir do momento em que uma pessoa decide por fazer algo e começa a mudar sua postura, já influencia outras pessoas a se movimentarem também. Por isso encaro de maior importância incentivar e participar de iniciativas populares, seja de indivíduos ou de coletivos que estão produzindo, e criar ações por conta própria.

Citarei primeiro algumas questões que percebo na realidade observada, que me parecem travar, interromper e dificultar a produção artística no Sul de Minas, depois citarei algumas ações e propostas que penso ser importantes para mudança desta realidade.

Pontos críticos:

• Valorização do externo e desvalorização do interno: percebo uma postura de provinciana de submissão, valorizando o que é produzido nas grandes capitais, de modo que a cultura produzida internamente é desvalorizada, ignorada e inferiorizada;

• Postura passiva e medo do julgamento: percebo uma grande dificuldade de pessoas realizarem algo de maneira comprometida, parece haver um grande medo de ser julgado ou taxado, sendo que na maioria das vezes os artistas não possuem condições materiais suficientes para criar algo de acordo com o padrão de qualidade (de acordo com os padrões de qualidade do mercado das capitais);

• Individualismo e inveja: a postura individualista, na produção cultural só faz com que dificulte a difusão cultural, a cultura é um bem público e a produção cultural é pública, é direito de todos. Não pode ser vista do ponto de vista pessoal: não há melhores ou piores artistas, há diferentes produções culturais;

• Falta de identidade própria: para um povo que não se percebe como produtor de sua identidade e história, a produção artística é feita de maneira alienada, importando a estética de artistas de fora, que vivenciam outra realidade. A realidade concreta do sul de minas acaba ficando deixada de lado e ignorada;

• Dificuldade de apoio particular: penso eu que, por toda essa cultura de inferiorizar a própria produção artística e de um mercado capitalista devorador, muitos empresários ainda não reconhecem a importância das produções culturais para o desenvolvimento da sociedade como um todo.

Visto as questões acima, abaixo pontuo observações que penso ser necessárias e urgentes, a fim de possibilitar uma mudança nesse cenário da produção artística e cultural no sul de minas.

Mudanças necessárias:

• Valorizar a arte que é produzida: não vejo a possibilidade de se interessar por criar cultura sem que se pretenda valorizar todas as diferentes produções culturais, pois a cultura é um todo e não partes, só se amplia as produções culturais em conjunto;

• União das produções culturais: estabelecer conexões entre os diferentes artistas e coletivos de produção cultural, com intuito de se unirem em suas semelhanças, respeitando suas diferenças, possibilitando ações em conjunto, numa espécie de cooperativa para um crescimento coletivo;

• Se apropriar das Leis de Incentivo: os municípios que recebem incentivo proporcionam que as pessoas possam empreender um projeto cultural e receber verba para o desenvolvimento e sustentação do mesmo por um período;

• Empreendimento cultural: criar produções culturais por conta própria e buscar apoios públicos e particulares;

• Encontros coletivos, mostras de arte e sarais: pois a arte não é somente aquela que vemos nos bares, ela está em esquinas perdidas da cidade, onde muita gente precisa de encontros e sarais para expressar o que pensa e sente, trocar experiências e crescer em conjunto;

• Criação de cenas independentes: criar produções de material cultural e eventos culturais de acordo com as condições e realidade e condições em que se está presente, iniciativas individuais e coletivas. Por exemplo: gravar um disco caseiro e vendê-lo por simbólico, realizar mostras de arte e exposições em praças;

• Usar a internet como ferramenta de divulgação: se apropriar deste espaço aberto que são os blogs, sites, myspace, youtube, flickr, soundcloud, orkut, etc; criar rádio online, tv online, distribuir a arte via internet e redes sociais;

• Agregar valor econômico e cultural a produção artística: resultante de todas as ações acima propostas, pretende-se que com o passar do tempo as pessoas passem a agregar valor a arte produzida, pois tudo o que se faz em arte é gera gastos e deve ser reconhecido. Penso que as saídas não são de criar indústrias nos moldes capitalistas, mas proporcionar ao público arte e cultura em valores acessíveis, de modo que se possa cobrir os gastos e receber alguma quantia para sua manutenção, para que os artistas possam ter um fluxo de produção mais intenso, não precisando procurar empregos como advogados, vendedores, etc, mas poderem se manter dentro do que fazem de melhor, que é a sua arte.

Bruno Barbedo Carrasco.

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