Uma prática pedagógica transformadora

Se queremos ser educadores, neste momento histórico brasileiro, precisamos captar a sua dimensão pedagógica, diz o professor Miguel Arroyo. Temos que aprender com as experiências concretas. Não estamos começando do zero. A troca de experiência, o respeito ao trabalho dos outros, a abertura ao aprendizado, o diálogo, são valores pedagógicos fundamentais.

Referindo-se à contribuição de Paulo Freire, o mestre de todos nós, à construção do Projeto Popular para o Brasil, Arroyo diz que Paulo Freire não inventou um método, porque educação para ele era muito mais que isto.

Educação para Paulo Freire é uma conduta, um compromisso, uma postura. É um ato político. Portanto não é neutra. O nosso trabalho formativo é voltado para a transformação da realidade. A manutenção da realidade tal como está, serve aos dominadores. Nós queremos transformá-la, de maneira que todas as pessoas tenham vida digna e possam ser felizes.

Para os dominadores, o povo é analfabeto, ignorante, bárbaro e a educação viria então para domá-lo. Esta é a ideia, a cultura política que invadiu a cultura pedagógica e adentrou às escolas.

Nosso trabalho formativo não será para domar o povo, ao contrário. Será para que ele entenda que a violência, a miséria e a infelicidade no meio do que ele vive, não é uma fatalidade. Elas têm uma causa e é esta causa que precisa ser descoberta, compreendida e combatida.

Para Paulo Freire, a educação tem que desvelar a realidade e isto não pode ser feito apenas através da transmissão de conteúdos científicos. Muitas vezes corremos o risco de reproduzir valores pedagógicos autoritários, mesmo transmitindo conteúdos críticos. Mudamos os conteúdos, mas mantemos a postura, diz Miguel Arroyo. Trocamos as mentiras da burguesia pelas nossas verdades. Isto é errado!

Educação não é transmissão de conhecimentos – ainda que com conteúdos críticos. Educação é uma relação entre pessoas, sobretudo uma relação entre gerações. É uma troca. Não há ninguém que saiba tudo, assim como não há ninguém que não saiba nada. O povo tem saberes, ele não é tábua rasa. O educador tem que crescer como sujeito (ninguém educa se não é educado) e a educação é uma empreitada a pelo menos dois. A conduta é reconhecer que o povo é sujeito e tem saberes (sem exaltação basista).

O desafio do formador, do educador popular, é captar as redes sociais onde estes saberes são construídos e reproduzidos de geração para geração. Em qualquer comunidade, bairro, há uma rede de trocas e há mestres. Quem são estes mestres? Como se relacionam entre si e com a comunidade? Mais importante do que os saberes de cada um deles é compreender estas relações, as redes sociais de trocas de saberes através das quais estão fortemente amarrados valores, identidades. Há um tecido social pedagógico-educativo, onde seres humanos se constróem, se destróem, constróem suas identidades, seus valores. Temos que entender os pontos de encontro destas redes para reforçá-las e construirmos o Projeto Histórico Popular.

Um valor fundamental na pedagogia de Paulo Freire é o caráter coletivo do projeto educativo. O ser humano só se educa em relação com outros seres humanos. Só aprende a ser humano, aprendendo o significado que outros seres humanos dão à vida, à terra, ao amor. Daí a importância de compreender o caráter ritual do projeto educativo, dos símbolos, da mística.

A compreensão do caráter coletivo e ritual do processo educativo, nos leva a resgatar o que há de mais forte nele que é a cultura popular. Educação e cultura têm que ser recuperadas como vínculo estreito. Estudo e produção da vida fazem parte do mesmo processo de humanização. Assim como também fazem parte do processo de humanização a luta por direitos iguais e o respeito à diversidade. Há muitas lutas resultantes desta diversidade na história recente em nosso país. Lembrá-las, significa recuperar algo fundamental, que é colar a educação às grandes questões humanas, que extrapolam a produção material da vida. É dar conta da onilateralidade da formação humana, das questões que influenciam a vivência cotidiana dos trabalhadores.

Finalmente, um grande valor pedagógico é a clareza sobre a dimensão histórica do nosso projeto educativo. Não estamos inventando agora a pedagogia popular. Há que se levar em conta a memória coletiva. Não podemos zerar a história e começar hoje como se fôssemos mensageiros da luz. Não devemos agir como se antes de chegarmos tudo fosse negativo. Há muito mais positividade no povo brasileiro do que pensamos. Nos preocupamos mais em ver as negatividades da elite do que em enxergar as positividades do povo e buscar o que há de positivo em suas lutas pela sobrevivência.

As elites são as mesmas que esmagaram e esmagam até hoje os índios, os negros, o povo pobre. Em essência, seus métodos de dominação são os mesmo, da cooptação à repressão, mudando apenas os instrumentos utilizados para apagar a memória histórica e continuar dominando. Para a burguesia o passado não importa, só falam em preparar para o futuro. Mas que futuro? A educação oficial, está impregnada desta idéia: preparar o jovem para o futuro, para um mercado de trabalho que já não existe mais. Preparar para o futuro permitido pela burguesia hoje, é preparar para o vazio.

O povo, na sua luta pela sobrevivência cria e recria formas de resistência e enfrentamento. É esta história que precisamos resgatar. O nosso trabalho de formação tem que estar fortemente enraizado no passado, nas lutas por direitos no presente e na construção de um futuro que resgate para a humanidade o direito à felicidade.

“Todo projeto educativo, tem que ser um projeto de humanização. O que implica reconhecer a desumanização, ainda que seja uma dolorosa constatação. Juntar os cacos triturados pela injustiça, pela fome, provocadas pela brutalidade do capitalismo. Buscar a viabilização da sua humanização no contexto real, concreto, do Brasil, é o desafio do Projeto Histórico Popular. Recuperar a humanidade roubada do povo brasileiro!”

(Texto organizado por Ana Inês a partir da fala Do professor Miguel Arroyo no Curso Nacional de Formação de Formadores da Consulta Popular, Ibirité, MG, fevereiro/2000 e que está publicado na íntegra, no livro Paulo Freire Vida e Obra, da Editora Expressão Popular.)

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