Formação na práxis da educação popular crítica

A perspectiva freireana de formação na práxis da educação popular crítica

Dentre os fazeres de uma Educação Popular, destaca-se o momento participativo de planejar e organizar as atividades práticas de formação comunitária, pois é aí que os interesses e as intencionalidades políticas tornam-se coletivamente conscientes e explícitas, evidenciando os critérios adotados para a seleção de conhecimentos sistematizados e metodologias que promoverão o percurso que se pretende implementar no processo de construção / apreensão / intervenção na realidade concreta. Trata-se de uma proposta de formação permanente que visa desencadear junto à comunidade um posicionamento crítico-prático em relação às necessidades e às contradições por ela vivenciadas e os encaminhamentos concretos para a conquista da autonomia.

Concebe-se, assim, a Educação Popular como o conjunto de práticas socioculturais que, de forma explícita ou implícita, consciente e intencional, ou incorporada de maneira acrítica, num primeiro momento, se inter-relacionam nas diferentes instâncias do espaço / tempo comunitário, assumindo, gradativamente, uma intervenção pedagógica emancipatória na prática sociocultural e econômica vivenciada. Parte-se, portanto, do conflito para chegar a uma atuação social significativa e contextualizada.

É nessa perspectiva da Educação Popular que se inscreve a formação comunitária freireana, via tema gerador. A proposta procura romper a dissociação entre conhecimento científico e cidadania, observada na tradição sociocultural dominante, do colonizador, considerando conhecimento, tanto a realidade local - reflexo de um contexto sócio-histórico, concretamente construído por sujeitos reais -, quanto o processo de produção da cultura acadêmica, proposto a partir do diálogo entre saberes, popular e científico, em que a apreensão do conhecimento é construída coletivamente, a partir da análise das contradições vivenciadas na realidade local.

O planejamento das ações transformadoras da realidade desumana apresenta-se como um desafio para a comunidade comprometida com a construção de uma prática sociocultural crítica, já que é justamente o momento de romper com as tradições autoritariamente preestabelecidos e assumir-se como comunidade construtora de conhecimentos, ou seja, como sujeito coletivo que, criticamente, supera os obstáculos ideológicos da tradição sociocultural do colonizador, predispondo-se à análise da realidade imediata em que a comunidade se insere, participando ativamente, tomando decisões e arquitetando os fazeres transformadores a ela pertinentes.

Podemos assinalar diretrizes gerais que norteiam um movimento social popular crítico em uma concepção educacional libertadora: a tomada de consciência das implicações políticas da prática sociocultural tradicional e a construção de um novo paradigma e sua respectiva implementação crítica. Assim, a formação comunitária freireana, via tema gerador, apóia-se na dialogicidade como referência para a construção do conhecimento e como metodologia proposta para a vivência das atividades participativas da comunidade.

Para tanto, os seguintes momentos organizativos são identificados na implementação de sua práxis:
 
  1. Levantamento preliminar da realidade local.
  2. Escolha de situações significativas.
  3. Caracterização e contextualização de temas/contratemas geradores sistematizados em uma rede de relações temáticas.
  4. Elaboração de questões geradoras.
  5. Construção de planejamentos para a intervenção na realidade.
  6. Preparação das atividades comunitárias participativas.
     
O levantamento preliminar da realidade local, pesquisa-ação participante, busca partir de dados coletados na comunidade (estatísticos, socioculturais, econômicos, políticos e lingüísticos), que são organizados para que as situações consideradas significativas sejam selecionadas, no sentido de:
 
  • Evidenciar diferentes visões e percepções dos diversos segmentos da comunidade.
  • Inter-relacionar dados e informações que permitam configurar a realidade estudada.
  • Analisar coletivamente e contextualizar na sociedade os fenômenos locais.
  • Explicitar contradições que, em princípio, podem estar ocultas para a maioria da comunidade.
  • Possibilitar a análise a partir das contribuições do conhecimento sistematizado, gerando conteúdos que proponham uma superação da visão anterior, a construção de concepções críticas sobre o real.

A seguir, a retirada dos temas geradores – e, conseqüentemente, dos respectivos contrapontos aos temas geradores, os contratemas - se dá a partir da discussão das possíveis situações e falas significativas, considerando:
 
  • O limite explicativo que a comunidade possui para tais situações;
  • A compreensão que os animadores (educadores populares) possuem da problemática local;
  • A análise e as relações que os educadores populares estabelecem nas diferentes áreas do conhecimento, consubstanciando temas/contratemas e contexto sociocultural e econômico amplo.

A elaboração das questões geradoras tem por objetivo nortear o trabalho dos educadores populares na organização dos conhecimentos a serem abordados na formação da comunidade. Essa construção expressa o início de uma ação educativa que estará em constante revisão. Pressupõe diálogo tanto em relação à escolha do objeto de estudo, quanto no processo de construção do conhecimento efetivado na prática cotidiana da educação popular crítica. A questão geradora orienta e dinamiza esse diálogo constante.

É importante salientar que esse processo, por ser dinâmico e depender do grupo de educadores comunitários envolvidos, acaba ganhando características próprias e organizações específicas em cada movimento social. Os pressupostos comuns são:
 
  • A realidade local como ponto de partida;
  • O trabalho coletivo de participação e análise no processo de redução temática (Freire, 1988), buscando uma compreensão contextualizada e crítica da organização sociocultural e de possíveis ações na transformação da realidade imediata;
  • A organização metodológica do diálogo na ação participativa da comunidade.

Visando uma apreensão crítica e efetiva do conhecimento cientificamente sistematizado, educadores populares e especialistas das diferentes áreas do conhecimento participam de discussões, buscando articular referenciais e conceitos supradisciplinares. A concepção crítica e dialética da construção científi ca, sua historicidade, sua não-neutralidade, bem como seus limites, correspondem à base comum de análise para as diferentes áreas do conhecimento.

Outro aspecto que demanda sistematização é a dialogicidade em todo o processo, desde a elaboração e organização do planejamento das ações, até a preparação das atividades de participação comunitária. Três momentos são referências para o fazer-educacional popular crítico:

  • Estudo da Realidade ou Problematização Inicial - em que se analisa uma situação significativa da realidade local, problematizando-a e questionando os modelos explicativos propostos pela comunidade e alunos (codificação / descodificação de contradições).
     
  • Organização do Conhecimento (OC) ou Aprofundamento Teórico (AT) - em que os conhecimentos sistematizados selecionados são confrontados com a problematização inicial, buscando uma nova concepção das situações analisadas.
     
  • Aplicação do Conhecimento (AC) ou Plano de Ação (PA) - em que o conhecimento 13 Prefeitura Municipal de São Paulo. Secrecretaria Municipal de Educação. Cadernos de Visão de Área: Ciências, São Paulo, l992, e Angotti, 1991.

Metodologia e Sistematização de Experiências Coletivas Populares anteriormente construído e apreendido é utilizado para “reler” e reinterpretar a própria realidade, bem como para ser extrapolado para novas situações que apontarão novas problematizações, retroalimentando o processo.

Tais momentos não podem ser compreendidos como estanques e dissociados, mas como referências na articulação e organização do diálogo entre conhecimentos na práxis da educação popular emancipatória.

Utilizam-se como critérios a realidade local contextualizada pelo processo de redução temática, a concepção crítica do conhecimento cientificamente sistematizado e a dialogicidade para o desenvolvimento do processo de problematização do real, construção-apreensão do conhecimento pertinente e intervenção transformadora. Não se trata, portanto, de uma concepção de educação popular que privilegia apenas um desses momentos do processo de formação, ou de uma visão que se restringe a abordagens “culturalistas”, trata-se da busca constante, coletiva e histórica, de sistematizações para a construção de uma participação sociocultural crítica, em que o diálogo entre saberes se estabelece em movimentos sucessivos de avaliação, superação e reconstrução. Aposta-se na autonomia comunitária, enquanto gestão dos seus próprios destinos, não autosuficiência, na socialização do conhecimento e na capacidade dos educadores populares construírem o próprio planejamento participativo das ações, negando a ingerência de representantes assistencialistas da elite intelectual ou econômica que defendem uma homogeneidade irreal e injusta, fazendo da prática sociocultural popular uma mera reprodução das tradições culturais ideologicamente concebidas e implementadas por essas elites dominantes para perpetuar a desinformação e a desigualdade social. O quadro a seguir procura sintetizar os momentos dessa proposta de formação comunitária.

______________________
Texto de: Antonio Fernando Gouvêa da Silva, Doutor em Educação (PUC/SP), assessora municípios em movimentos de reorientação curricular e entidades de apoio aos Movimentos Sociais, na área de Educação Popular. Publicado na revista do Seminário Nacional de Educação da SMED, Caxias do Sul / RS, abril, 2000.

0 comentarios:

Postar um comentário

Sobre as citações

As citações expostas nesta página têm por único objetivo promover e difundir valores culturais e conhecimento, muitas pessoas não teriam acesso de outra maneira a este tesouro cultural pertencente a toda humanidade. De nenhuma maneira se pretende obter algum benefício financeiros por meio disto, e se algum autor ou compositor, representante legal ou contenedor de direitos considera que a exposição de algum material em particular afeta seus direitos de autor, peço que comunique a fim de proceder a remover qualquer link, obrigado.

Facebook