O que é cultura?

A cultura é uma preocupação do momento atual, que diz respeito tanto a humanidade como também a cada um dos povos, nações, sociedade e grupos humanos. O estudo dos processos e conflitos nos ajuda a compreender como os grupos humanos se tornaram como hoje são.

O conceito de cultura reflete diversas interpretações, aplicações e sentidos, podendo estar associado a educação (estudo, formação escolar), manifestações artísticas (teatro, música, pintura, escultura), a época (período histórico), tradição (festas, cerimônias, lendas e crenças), a vestimenta, a culinária, ao idioma, e a tantas coisas mais.

A palavra cultura é de origem latina, e vem do verbo colere, que quer dizer cultivar (relacionado a atividades agrícolas). Segundo SANTOS (2006) pensadores antigos ampliaram esse significado usando para se referir ao refinamento pessoal, a “cultura da alma”, como sinônimo de refinamento, sofisticação pessoal e educação elaborada de uma pessoa, “Considera-se como cultura todas as maneiras de existência humana.” (p. 35). Olhar para a cultura, "inclui o estudo de processos de simbolização, ou seja, de processos de substituição de uma coisa por aquilo que a significa, que permitem, por exemplo, que uma ideia expresse um acontecimento, descreva um sentimento ou uma paisagem" (p. 42)

Vista sob a dimensão do conhecimento, a cultura está relacionada a "todo conhecimento que uma sociedade tem sobre si mesma, sobre outras sociedades, sobre o meio material em que vive e sobre a própria existência. Cultura inclui ainda maneiras como esse conhecimento é expresso por uma sociedade, como é o caso de sua arte, religião, esportes e jogos, tecnologia, ciência, política. O estudo da cultura assim compreendida volta-se para as maneiras pelas quais a realidade que se conhece é codificada por uma sociedade, através de palavras, ideias, doutrinas, teorias, práticas costumeiras e rituais. O estudo da cultura procura entender o sentido que fazem essas concepções e práticas para a sociedade que as vive, buscando seu desenvolvimento na história dessa sociedade e mostrando como a cultura se relaciona às forças sociais que movem a sociedade.” (SANTOS, 2006, p. 41). A compreensão desses elementos serve não somente para descrever a realidade, mas também para apontar caminhos e contribuir para suas mudanças necessárias.

Para SANTOS (2006), cultura "é uma dimensão do processo social, da vida em sociedade (...) diz respeito a todos os aspectos da vida social e não se pode dizer que ela exista em alguns contextos e não em outros (...) é uma construção histórica, seja como concepção, seja como dimensão do processo social (...) a cultura não é "algo natural", não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas, ao contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana". (p. 44, 45)
A visão positivista da ciência ocidental do século XIX tentou hierarquizar as culturas humanas tanto as existentes quanto as extintas, sob o ponto de vista do desenvolvimento de cada uma, partindo do ideal da civilização europeia da época. "As potências europeias encontravam-se em marcado processo de expansão, incorporando nações e territórios em outros continentes e submetendo suas populações a seu mando político e controle militar." (SANTOS, 2006, p. 30)

Essa postura foi resultante da dominação política e econômica, juntamente com a imposição das concepções culturais europeias aos outros povos, como forma de domínio e controle, sendo apresentado como uma cultura superior as outras. Porém, percebe-se hoje que cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e, para que uma possível hierarquização seja estabelecida, é necessário subjulgar uma cultura aos critérios da outra.

As preocupações com a cultura tornaram-se mais importantes a partir do século XIX, associadas a novas formas de conhecimento, quando a cultura se tornou laica (não religiosa), pois até então o cristianismo tinha força para se impor na definição de práticas e comportamentos da Europa. Na mesma época em que foi-se intensificando o poderio industrial das nações européias frente aos povos do mundo. "Aumentaram então os contatos entre as nações da Europa, industrializadas e sedentas de novos mercados, e populações do resto do mundo. Sociedades antes isoladas foram subjulgadas e incorporadas ao âmbito de influência européia”. (SANTOS, 2006, p. 28)

Essa maneira de se conceber a cultura representa uma tentativa de se justificar e legitimar o domínio e exploração da Europa sobre os demais povos do mundo. “A diversidade das culturas existentes acompanha a variedade da história humana, expressa possibilidades de vida social organizada e registra graus e formas diferentes de domínio humano sobre a natureza.” (SANTOS, 2006, p. 15)

Segundo SANTOS (2006), nas américas, as discussões no campo da cultura estavam ligadas ao processo de constituição das nações modernas, tentando entender o que há na cultura de especificamente brasileiro, peruano ou canadense, por exemplo. "Assim, nas Américas do século XX, diferentemente da Alemanha dos séculos anteriores, as discussões sobre cultura expressam projetos de nação em Estados derivados da colonização europeia dessas terras." (SANTOS, 2006, p. 32)

Estudar os processos culturais é reconhecer a transformação pelo qual passam as sociedades. "O importante para pensarmos a nossa realidade cultural é entendermos o processo histórico que a produz, as relações de poder e o confronto de interesses dentro da sociedade" (SANTOS, 2006, p. 34)

As variações nos modos de ser, agir, sentir e se colocar no mundo não são gratuitas, elas fazem sentido histórico para os agrupamentos humanos que as vivem, se relacionando com as condições materiais da existência. O estudo da cultura contribui no combate aos preconceitos, possibilitando o entendimento das diferenças para o respeito e dignidade nas relações humanas. "Cada realidade cultural tem sua lógica interna, a qual devemos procurar conhecer para que façam sentido as suas práticas, costumes, concepções e as transformações pelas quais estas passam. É preciso relacionar a variedade de procedimentos culturais com os contextos em que são produzidos.” (SANTOS, 2006, p.8)

Quando nos questionamos sobre as diferentes formas culturais, estamos questionando sobre nós mesmos e a nossa existência como seres resultantes de processos culturais - sujeitos e também afetados pelas forças da realidade social da qual estamos inseridos. "Lendas ou crenças, festas ou jogos, costumes ou tradições - esses fenômenos não dizem nada por si mesmos, eles apenas dizem algo enquanto parte de uma cultural, a qual não pode ser entendida sem referência à realidade social que faz parte, à história de sua sociedade." (SANTOS, 2006, p. 47). Porém, "nada do que é cultural pode ser estanque, porque a cultura faz parte de uma realidade onde a mudança é um aspecto fundamental" (SANTOS, 2006, p. 47)

Os caminhos de cada agrupamento humano foi sendo marcado pelas maneiras de organizar e transformar a vida, tentando superar conflitos de interesse e tensões geradas na vida social. “Cada cultura é o resultado de uma história particular, e isso inclui também suas relações com outras culturas, as quais podem ter características bem diferentes." (SANTOS, 2006, p.12)

O estudo e avaliação das diferentes formas culturais varia de acordo com a cultura que se está inserido e pela qual se efetua a observação e interpretações. Os critérios usados para se classificar uma cultura são também culturais. Na avaliação de culturas, tudo é relativo. “Só se pode propriamente respeitar a diversidade cultural se se entender a inserção das culturas particulares na história mundial. (...) Não há superioridade ou inferioridade de culturas ou traços culturais de modo absoluto, não há nenhuma lei natural que diga que as características de uma cultura a façam superior a outras.” (SANTOS, 2006, p.16)

“Existem realidades culturais internas à nossa sociedade que podem ser tratadas, e muitas vezes o são, como se fossem culturas estranhas. Isso se aplica não só às sociedades indígenas do território brasileiro, mas também a grupos de pessoas vivendo no campo ou na cidade, sejam lugares isolados de características peculiares, sejam agrupamentos religiosos fechados que existem no interior das grandes metrópoles. Pode-se tentar demonstrar suas lógicas internas, sua capacidade de emitir pronunciamentos, de interpretar a realidade que as produz, de agir sobre essa realidade..” (SANTOS, 2006, p. 18)

Dessa maneira, consideramos a diversidade cultural como fato essencial para compreender a realidade onde vivemos, constituindo as diferentes maneiras de atuar na vida social. A cultura é um processo humano que está sempre em movimento e mutação, não se move somente pelo que existe, mas também pelas possibilidades e projetos do que podem tornar a ser. "O modo como se pensa a cultura de uma sociedade está sempre ligado a outras preocupações e às maneiras como se julga poder agir sobre ela" (SANTOS, 2006, p. 64)

As diferenças culturais co-existem numa mesma sociedade em diferentes classes sociais, agrupamentos de pessoas, localização de grupos, diferenças de idades, de práticas religiosas, gostos e interesses, entre outras. Por exemplo a realidade dos trabalhadores rurais e suas famílias são diferentes da realidade dos trabalhadores urbanos, mesmo que moradores de uma mesma cidade, há diferenças de costumes, salário, estudo, gostos, valores, entre outras coisas mais.

Em alguns pontos de vista, o conceito de cultura é utilizado para se manter uma relação de poder de povos sobre outros, o conhecimento dito "erudito", por exemplo, foi fortemente utilizado por grupos com interesses de dominação, tratando outros grupos humanos como inferiores, atrasados e superados, e "ao longo da história a cultura dominante desenvolveu um universo de legitimidade própria, expresso pela filosofia, pela ciência e pelo saber produzido e controlado nas instituições da sociedade" (SANTOS, 2006, p. 54). Enquanto que a cultura popular tem o caráter de se opor, atuando como resistência em relação a dominação.

Na cultura brasileira, há um contrastes entre as culturas ditas populares e as ditas elitizadas, onde "o carnaval e os cultos afro-brasileiros desenvolveram-se a partir de tradições das populações trabalhadoras, com marcas muito fortes das origens africanas dessas populações (...), os sistemas escolar, hospitalar e jurídico, estes de origem européia, tanto em sua organização interna quanto em suas concepções, introduzidos pelas elites." (SANTOS, 2006, p. 60). Apesar de que todas essas manifestações de organização e expressão humana se misturam como parte do processo histórico da sociedade como um todo.

O estudo dos diferentes processos da sociedade em suas manifestações culturais inevitavelmente nos traz discussões sobre as relações de poder dentro de uma sociedade ou entre sociedades. "Hoje em dia os centros de poder da sociedade se preocupam com a cultura, procuram defini-la, entendê-la, controlá-la, agir sobre seu desenvolvimento (...), as preocupações com a cultura são institucionalizadas, fazem parte da própria organização social, expressam seus conflitos e interesses, e nelas os interesses dominantes da sociedade manifestam sua força." (SANTOS, 2006, p. 82).

Há relações desiguais de apropriação e uso das manifestações culturais, marcando uma realidade desigual. As lutas pela universalização do direito ao acesso a cultura e a possibilidade de se produzir e veicular cultura, são lutas contra as relações de dominação entre os grupos de pessoas. São lutas para a transformação da cultura tal qual estamos inseridos.

Após todas as reflexões explicitadas, "podemos reter da comparação entre culturas e realidades culturais diversas, a compreensão de que suas características não são absolutas, não respondem a exigências naturais, mas sim que são históricas e sujeitas a transformação" (SANTOS, 2006, p. 84).


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Referência:

O que é cultura
José Luiz dos Santos
São Paulo: Brasiliense, 2006
Coleção primeiros passos; 110.

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